Sua vida é fast food?

Como está sua energia para saborear sua própria vida?

Já tiveste a sensação de que estás simplesmente vivendo? Em linhas gerais não está errado, mas refiro-me a sensação de ser levado pela maré, sem sair do lugar. De que acabas por decidir o que te tomas o menor esforço, independente das consequências? Ou mesmo que tuas decisões na verdade são de outras pessoas, que te influenciam? Que não percebes uma informação a tua frente? Além de decisões, que tuas crenças e convicções vem de onde foi mais fácil, e tu simplesmente as aceitaste. Talvez até mesmo a maneira como te comunicas seja deveras… simplória?

Escrevi o primeiro parágrafo em norma culta propositalmente. Possivelmente a cognição sofreu um pouco mais aqui para assimilar rapidamente o questionamento proposto. E é justamente isso que quero abordar hoje: o desvio da dificuldade.

Sintomas

Pense em como se alimenta: quantas vezes cozinha por dia? Pergunta estranha, não? Nos últimos tempos, agravando-se com a pandemia, temos diminuído cada vez mais o hábito de cozinhar. Seja por não termos tempo, por chegarmos cansados do trabalho ou, para quem está em home office, simplesmente não ter energia para dispender na cozinha, sendo mais fácil pedir as refeições pelo delivery. Fico aqui imaginando se a pergunta fosse “quantas vezes preparou algo que levasse mais de duas horas?”.

Dez anos atrás nossas únicas opções de assistir a filmes em casa era pela televisão, nos horários definidos pelas emissoras. Também era possível por mídia física, o que nos faria sair de casa para comprar ou alugar o DVD ou Blu-ray. E tudo isso era caro, principalmente considerando os canais por assinatura. Então veio o streaming e passamos a assistir o conteúdo que quiséssemos, na hora que bem entendermos - com direito a pausar. E hoje provavelmente você assina a mais de um serviço (mesmo sem saber), paga por eles, e não assiste a nada lá. Somente para ter a praticidade de assistir quando quiser ou por não ter o trabalho de cancelar a assinatura?

Uma situação bem comum que vejo nas redes sociais é a “preguiça de ler”. Explico: Muitas pessoas e empresas vendem produtos, cada vez mais diversos e nichados. Eu vi há pouco tempo um conjunto de imagens descrevendo um bolo inclusivo, destinado ao consumo de quem tem APLV, com todas as explicações sobre o tema, ingredientes, como solicitar para a confeitaria e até meios de pagamento. Quais as primeiras perguntas nos comentários? Transcritas de lá: “Vai leite?”, “Aceita Pix?”, “É vegano?”. Estava tudo lá, mas é mais fácil perguntar, não é mesmo?

Outro fenômeno dos tempos modernos, relacionado ao anterior, é o de aceitar os fatos como eles chegam, sem discutir. Notícias em veículos respeitados com o título “Café diminui o tamanho do cérebro” me fariam questionar minha existência, uma vez que o meu encéfalo já teria um tamanho negativo nessa altura do campeonato. Um episódio do excelente podcast Naruhodo explicou a situação, mais uma distorção em prol do resumo de um longo artigo científico, com explicação profunda do Altay de Souza e Ken Fujioka. Não precisamos ir longe para encontrarmos situação parecida nos grupos de mensageiros (WhatsApp e Telegram) ou outras redes, normalmente sem a fonte. Questionei um conhecido que me trouxe um “você viu que a vacina X dá problema no cérebro?”, pedindo que ele me mostrasse a fonte, que ele prontamente apresentou-me um vídeo a lá TikTok (nada contra, quiçá a favor) que levaria -3 em escala de veracidade; além do “especialista” descrito no vídeo ter falecido em 2004, os dados na legenda não batiam com o que estava acontecendo. Em outras palavras, as pessoas assumem como verdade a primeira coisa que lhes chega, mesmo que não tenha lógica alguma e sem qualquer questionamento, até mesmo contrariando fatos, desde que dentro de seu escopo de aceitação, seja esse de cunho político, religioso ou ideológico - ou os três.

Há um risco grande quando pensamos que isso se aplica também ao sexo. Com uma juventude que aprende o que é sexo a partir da pornô, frustrada por não conseguir fazer nem uma fração da performance original. Que de tanta ansiedade meninos querem fazer uso de “Viagras” da vida, para não falhar na hora do coito. Que meninas começam a aceitar que o protocolo é de se submeter assim como nos vídeos. Temo que em algum momento a humanidade não saiba mais se reproduzir. Falarei mais a respeito no próximo texto desta série.

Há uma indisponibilidade popular em ir além. De questionar. De fazer por conta própria. De construir do seu jeito o que é importante para si. Isso afeta inclusive os relacionamentos, fraternais, comunitários e afetivos. O que são os amigos senão aquele pessoal com o qual me encontro para tomar uma cerveja e falar de qualquer coisa, menos de nós? Ou mesmo os inúmeros casais que encontro sendo praticamente a mesma coisa que todos os outros, como se houvesse uma cartilha para tal. Até individualmente se vive uma vida de plástico, baseada em meia dúzia de frases com metáforas contraditórias entre si.

Esforço Cognitivo

Fast food é uma modalidade alimentar que não se refere unicamente ao preparo. A ideia é que o consumo também seja o mais breve possível. Otimização de processos, recursos e pessoas contribuem para que a cadeia de consumo seja curta, inclusive na escolha dos itens, com combos e promoções que tornam velozes até mesmo o pedido e pagamento. Em um fast-food você não se esforça para escolher nem comer. O consumo sem esforço é o objetivo. Veja: um hambúrguer pode não ser fast food, quando o objetivo é que você o saboreie com tranquilidade.

Essa fuga da responsabilidade de pensar a respeito de si está presente em toda a sociedade. Seja pelo estresse do cotidiano em suas diversas facetas, do volume insano de informação ao qual somos expostos a cada minuto ou mesmo a fadiga imposta pelo ritmo de vida que levamos, temos cada vez menos capacidade de lidar com as coisas novas que nos são apresentadas - e diminuindo drasticamente com o que já estamos acostumados.

Esforço cognitivo, segundo a Wikipédia, “se refere ao nível de utilização de recursos psicológicos como memórias, atenção, percepção, representação de conhecimento, raciocínio e criatividade na resolução de problemas”. Todas suas decisões precisam desse esforço. Seus aprendizados. Todas as aberturas a novos conhecimentos e experiências. Sentimentos sensoriais, como ver com clareza, ouvir as nuances, apreciar aromas e gostos ou mesmo sentir o toque de alguém em sua pele. As emoções também fazem uso da cognição, sejam as positivas como o prazer, ou as negativas como a ansiedade.

Assim como com o esforço físico, a cognição cansa. Quanto mais o usamos, menos temos disponível. Não à toa, decisões no fim de um dia estressante são mais difíceis, ou menos sábias pois nossa mente está pouco disponível para isso. O esforço vai se acumulando conforme a complexidade e volume do que lidamos. Diferente do corpo, simplesmente “descansar” não alivia essa fadiga, que pode se acumular ao longo dos dias, meses ou anos.

Também podemos chegar ao estado de saturação, no qual todo espaço cognitivo já foi consumido e não há abertura para mais nada. Esse é um estado atribuído muitas vezes ao Burnout, que pode ser diagnosticado por um profissional da área de psicologia - que não é meu papel aqui. Ações tornam-se desmedidas, não há possibilidade de raciocínio ou mesmo cálculos simples. Nesse estado você reage instintivamente. A tudo. E, por experiência própria, posso dizer que não é nada bom.

Tenho percebido um outro fenômeno relacionado. O da diminuição da capacidade cognitiva. Do quanto estamos dispostos a dispender de “energia mental” para realizar ou viver nossas necessidades. Os sintomas mencionados anteriormente canalizam diretamente para este ponto. Estamos cada vez menos dispostos a tomar decisões complexas, abertos a viver experiências prazerosas e mesmo realizar atividades simples, como cozinhar, deixando o pouco disponível para nos permitir os pequenos prazeres. Um docinho para compensar o dia, se jogar no sofá e assistir a algo que não vamos prestar atenção alguma. Ou mesmo transar simplesmente para gozar, cinco minutos e nada mais. E com isso não pensamos direito nem no que falamos, quiçá o que compartilhamos.

O que fazer?

Corpo e mente funcionam de maneira similar, com suas peculiaridades. Quando realizei que estava entrando em fadiga mais uma vez, pensei em como me “preparar” para a próxima. Parece estranho, mas o que fazemos quando nos exercitamos é preparar os músculos para receber mais carga ou atividade. Ritmamos melhor a respiração de maneira que possamos oxigenar melhor o sangue e outros órgãos. Embora nos cansemos realizando o exercício, continuamente aumentamos a carga deles. Em uma situação na qual precisemos de uma atividade equivalente a alguma que já experienciamos, exerceremos pouco ou nenhum esforço.

Respirar foi um primeiro passo. Não estou falando de exercícios respiratórios, simplesmente. De sentir o diafragma contrair e expandir, assim como o ar frio passando pelas narinas, esquentando conforme avança aos pulmões. Identificando os diferentes cheiros por onde passava e voltando a sentir o meu próprio. Reaprendendo a respirar nas diferentes situações cotidianas. Passei a aproveitar mais algo que não paramos de fazer. E o perceber tornou-se o natural.

A partir daí tentei em outras áreas que fazem sentido para mim. Me alimentar foi algo que mudei em decorrência da descoberta com o ar. Não tenho problema com nenhum tipo de comida, mas hoje eu as saboreio com carinho, sentindo os diversos ingredientes e processos que levaram aquele resultado. Em todas as refeições. Mesmo um fast-food é apreciado de maneira mais contemplativa.

Manter a mente ativa também foi um ótimo exercício. Ler, estudar, consumir música e vídeo já são diferentes. O ponto crucial está no que se dedicar. Ultimamente os best sellers em livrarias são de coaches de frases feitas e afins; meu foco foi em leituras que me dessem prazer ou mesmo que abrissem minha mente a novos caminhos. Com os estudos não foi diferente. Na música uma feliz descoberta me trouxe de volta a esse mundo: que embora eu tenha tido uma severa lesão em um dos ouvidos eu escutava muito bem, reconhecendo nuances que nem me permitia tentar perceber, afinal minha crença é que minha audição fora prejudicada permanentemente.

Em suma, me preparei para que as sensações fossem o mais natural e instintivo possível, tentando ao máximo simplesmente senti-las. Obviamente há um esforço cognitivo nisso, mas infinitamente menor do que se eu parasse para tentar perceber uma nota de maracujá no aroma do café que tomo, como acontecia antes. Mesmo o barbear tem minha total atenção, desde a troca das lâminas à sua limpeza, mas cada vez me consome menos. O coito também é algo no qual eu estou por inteiro e aproveito o máximo que posso, no qual “rapidinha” não tem vez, mas sobre isso falo melhor no próximo texto.

Nos outros aspectos, os que não tem ligação direta com meu prazer pessoal, também tento exercer essa presença mais empírica. Observar as variações nas vozes das pessoas para quem trabalho e com o tempo perceber melhor seu estado emocional passaram a se tornar mais naturais e assertivas. Contemplar a evolução de cada pessoa, não só profissionalmente, e poder perceber um pouco de sua influência, acaba sendo também prazeroso. Além de, obviamente como um ex desenvolvedor, automatizo o que é possível e me traria alguma carga excessiva - o que supre minha nostalgia de codificar.


Não quero ser mais um a usar uma metáfora clichê ou mesmo dar uma receita de bolo. Cada pessoa é única, assim como seus caminhos. Mas faço aqui um convite a prestar mais atenção a sua vida. Nas coisas lindas que estão ao seu alcance, na sua casa ou mesmo dentro de ti. Que tal saborear melhor sua própria vida?

Este texto faz parte de uma série de doze textos, os quais estão sendo compostos cuidadosamente para que possas refletir sobre o ponto fundamental de sua vida: Você! Ao longo dessas linhas vamos nos aprofundar em questões delicadas, portanto conto com seu apoio, assim como tens o meu, para cuidar de ti. De estar bem consigo. De poder dizer que está melhor do que agora. Que seja um #novoeu!

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Última atualização em May 18, 2022 00:49 UTC
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