Que tal fruir?

Nosso comportamento com relação ao sexo nos afasta de aproveitar esta que é das melhores coisas que podemos nos proporcionar.

Visitei meu velho amigo Antônio há cerca de um ano em sua cidade natal e colocamos o papo em dia. Entre os tópicos estavam trabalho, projetos, e tantas coisas que haviam mudado em nossas vidas. E, como de praxe, falamos de relacionamentos. E, como de praxe, falamos de sexo. Sim, dois homens falando de sexo sem ser uma competição sobre quem pegou mais, mas sobre descobertas e inseguranças. E, aí falando sobre outras pessoas, ponderamos o quão raro era esse tipo de papo entre outros homens que conhecemos, com os quais temos contato frequente. Quantos vomitam a (suposta) incrível vida sexual que têm ao mesmo tempo que são extremamente carentes e vazios.

Nesse ponto estava mais atento à minha volta e aberto a receber os relatos de várias pessoas sobre sua vida íntima. E, surpreendendo um total de zero pessoas, para a maioria desse grupo, o sexo era nada mais que uma válvula de escape. Isso quando a pessoa conseguia chegar ao clímax. Alguns eram sobre “descobri o prazer depois da separação”. Outros sobre o tempo ou mesmo sobre o sexo como mecanismo de controle. Mas uma coisa era comum: o foco no fruir.

Tabu

Tabu: Proibição de determinada ação, de aproximação ou contato com algo ou alguém que é considerado sagrado.

Sexo é tabu. Infelizmente. Na verdade, começa um pouco antes. Simplesmente falar de sexo já é tabu. Estranhamente, ostentar conquistas ou atributos sexuais em rodas de bar não é. Independentemente de sua fé, sexo faz parte da narrativa religiosa, na mitologia e nos convênios. Seja na metáfora com frutas e répteis, seja na demonstração de intolerância.

Desde a infância, os homens são apresentados ao corpo da mulher como objeto de desejo e objetivo de posse. Às pré-adolescentes é reservado o discurso de se guardar. Felizmente pais mais “fora da caixinha” já levam seus filhos a um conhecimento mais amplo, mesmo que não tenham vivido essa experiência. Culturalmente ainda é aceito que o homem tenha várias parceiras, ao contrário da mulher, infelizmente. Também é aceito que o sexo esteja concluído com a ejaculação masculina. Com todas as coisas “culturalmente aceitas”, temos uma sociedade que cria homens que só sabem gozar e mulheres que renunciam ao próprio prazer.

Obviamente isso se estende a (não) compreender outras composições de sexo para além do homem e mulher. Relações homoafetivas, compostas por transsexuais ou pessoas não binárias, pansexuais ou mesmo pessoas assexuais, são tratadas como alienígenas por serem sinceros com seus corpos e desejos. O “cidadão de bem”, dono da moral e bons costumes, é quem mais aponta o dedo, sendo normalmente o mais frustrado no coito.

O grande problema é não falar do próprio sexo, julgando o de outrem. Na verdade, vários problemas. Preconceito, e o que deriva disso, é claramente um deles. Projetar a infelicidade na cama em quem é bem resolvido, mesmo que disfarçado de elogio, é mais um. Ou mesmo se colocar em um lugar de superioridade, por alguma definição divina, quando na verdade és alguém que inveja uma vida mais picante.

Se toca!

O principal motivo pelo qual não falamos do próprio sexo é a vulnerabilidade que ele nos traz. Além de estar nu, com seu corpo exposto ao escrutínio alheio. Com sua performance colocada a prova. Com seu corpo no da outra pessoa. Com um mundo lá fora que te julga e potencialmente julgará. Então o melhor a se fazer acaba sendo acabar com isso logo, fruindo ou não. Por que colocar na mesa o evento no qual estamos mais vulneráveis, não é mesmo?

Fruir: desfrutar, gozar

Um ponto bem importante a se saber é que sexo não é gozar. Sexo é algo que começa por dentro, e ainda não estou nem perto do aparelho reprodutor. Tudo tem início sem nem considerar uma outra pessoa. Tente descrever o que é a sensação do sexo, ou mesmo o que é o tesão. Ao pensar nisso você está usando justamente a peça onde tudo começa: o cérebro. E o que é sexo, senão essa longa interação de ações e reações sensoriais? Em decorrência da intensidade de toda essa avalanche de sensações, gozamos. Podemos começar de novo? Por que não?

Sempre é mencionada a importância das preliminares, que também não são o sexo. Assim como o gozar, fazem parte. Penetração também é outra parte e, como vamos perceber, ela em si não é a parte mais importante. O que exatamente você faz no coito, só ou com companhia, é algo seu. As posições que prefere, como gosta do toque aqui ou ali, se prefere dominar ou se submeter é, ou deveria ser, inerente a ti. Com outra(s) pessoa(s) essas preferências podem ser mescladas, sendo o mais importante não violar a vontade dele/a(s).

O principal no sexo é estar presente nele. Senti-lo. Desde o momento no qual a vontade bate à porta. Ao começar as carícias, sinta o que está fazendo, a musculatura envolvida, o arrepio na pele, o sangue circulando, a boca salivando e as partes do corpo que se ajustam. Tenha especial atenção ao fluir do ar e ao som envolvido, nos suspiros e gemidos. Explore este corpo detalhadamente, procurando as diferentes reações ao toque, força, jeito e região, estimulada e que estimula. Há muita pele para explorar, com algumas mais sensíveis que outras de acordo com cada estímulo - vale desbravar cada centímetro. Seu corpo vai ficando cada vez mais preparado e sensível. Por que estragar isso apressando as coisas? Aprecie esse novo aroma surgindo. Aprecie cada nova descoberta.

A dois (ou mais) podemos mais algumas coisas, apesar da imaginação ser poderosa. Sentir o sabor da outra pessoa. Da boca às diferentes texturas da pele. Em descobrir quais partes são mais quentes, ou mais úmidas. Compreendendo intuitivamente como estes corpos se encaixam da melhor maneira e como podem se movimentar enquanto estão nessa profusão de sensações. Nesse ponto, o estímulo onde se sente mais prazer é mera extensão de tudo o que está acontecendo. Gozar é consequência. Recomeçar um convite.

(ufa)

Meu intuito é que possa aproveitar algo tão bom como o sexo da melhor maneira possível. E essa maneira é se permitir. Admitir a fragilidade desse momento ao invés de temê-la ou evitá-la. Respeitar a si mesmo, seus desejos e limitações, assim como os de quem estiver contigo. Que não seja um tabu, mas sim parte importante da sua vida. E que possa falar das coisas importantes dela. A partir daí uma relação melhor com o seu prazer. E, se for possível, proporcionar prazer. Sem insegurança, nem para falar, nem para fruir.


Gostaria sinceramente de saber se esse texto se conectou de alguma maneira a ti. É, como dito, um assunto delicado. Caso sinta-se confortável em compartilhar, me procure nas redes e me mande uma mensagem.

Este texto faz parte de uma série de doze textos, os quais estão sendo compostos cuidadosamente para que possas refletir sobre o ponto fundamental de sua vida: Você! Ao longo dessas linhas vamos nos aprofundar em questões delicadas, portanto conto com seu apoio, assim como tens o meu, para cuidar de ti. De estar bem consigo. De poder dizer que está melhor do que agora. Que seja um #novoeu!

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Última atualização em Jun 14, 2022 21:31 -0300
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