Por que não choras?

Sobre guardar sentimentos.

É algo muito peculiar que na era da informação ainda tenhamos medo de algo tão básico quanto chorar. Isso quando não pedimos desculpas por chorar. Seja por tristeza, seja por se emocionar, seja por mostrar felicidade. Mas não culpo quem não chora, pois sempre há aquela pessoa a nossa volta que diminua a importância das nossas lágrimas, ou trate o choro alheio como fraqueza, drama, ou mesmo relacionando isso com a sexualidade ou gênero.

Não é raro ver uma mulher chorando. Assim como é igualmente comum associar isso a “fragilidade” ou “sensibilidade” feminina. Assim como é raríssimo ver homens chorando, pois “não é coisa de homem”, ou mesmo seria um sinal de fraqueza ou “viadagem”, como já ouvi.

O Chorar

Acredito que, de todas as demonstrações de emoção do corpo, chorar seja uma das mais visíveis e verdadeiras. É possível simular choro, mas mesmo quando atuando o chorar vem de incorporar os sentimentos do personagem a ser interpretado - ou recorre-se a lágrimas artificiais. O sistema límbico, responsável em lidar com os sentimentos, soma tudo o que está acontecendo e gera uma resposta de acordo. Os hormônios, como noradrenalina e serotonina, entram em ação e uma das reações pode ser a compressão da glândula lacrimal, das quais o produto escorre com o excesso.

Eu considero o choro como uma das mais verdadeiras reações, pois é espontânea. Nosso cérebro vai acumulando todas nossas emoções, juntando de acordo com o contexto e gerando uma reação. “As lágrimas nada mais são que o transborde da alma” - como acredito nisso! Se percebermos bem, nenhum choro é repentino. Vem de uma concentração de muitas sensações.

“Lágrimas nada mais são que o transbordar da alma”

Então por que chorar é considerado uma fragilidade? E consequentemente relacionado a fraqueza? Digo que chorar é uma força! Um mecanismo do nosso ser que precisamos usar melhor, assim como o ressignificar como comportamento valioso.

Acúmulo de sentimentos

Por que os homens não choram, ou se privam de chorar? Ou mesmo sentimos vergonha e pedimos desculpas ao derramar nossas lágrimas? Acredito que essa definição que falamos antes sobre o pranto ser entendido como fraqueza acabe nos levando a contermo-nos. Mas como é possível segurar lágrimas?

Como alguém que já conteve muito seus sentimentos, posso dizer que há um processo de negação. “Não posso chorar”. Você coloca outros sentimentos junto com tudo o que está sentindo, como “o que vão pensar de mim?”. Em dado ponto, acabamos por nos acostumar com isso. E torna-se “natural” não chorar, ao mesmo passo que a apatia toma conta do que estamos sentindo e vamos ficando frios para o que deveria nos emocionar. Mas estamos suprimindo sentimentos, não os eliminando.

Estas emoções vão sendo jogadas para debaixo do tapete. Até um dado momento no qual é impossível não reparar. Nesse ponto estamos perto de explodir. E as consequências são imprevisíveis.

Guardar emoções, sejam elas quais forem, de quaisquer origens, é algo que fazemos sem perceber. É sutil. Não falamos sobre algo que não nos agrada uma vez, depois seguramos o choro por uma tristeza. Ativamos a ansiedade por uma resposta que não chega, perdemos o sono com uma frustração. Isso tudo vai se acumulando e aquele tapete vai ficando cada vez mais alto. Pode levar meses, até anos, sem perceber esse vaso enchendo, gota a gota. Lágrima a lágrima. Fazendo um paralelo com a física, esse vaso inclusive pode acumular as lágrimas para além de seu limite, sem transbordar.

O perigo em guardar emoções

Em algum ponto, um passo sobre o tapete vai espalhar tudo o que deixamos lá. O vaso não vai derramar o excesso: vai quebrar por conta da pressão interna dele. Todas as emoções reprimidas vêm de uma só vez. Nos levando a lugares ruins. A provavelmente descontar uma decepção amorosa do passado em alguém que nem faz parte mais da sua vida. A atuar com receio no seu trabalho atual pela atitude de um antigo chefe ruim. A não fazer algo que te dava prazer pois em algum momento alguém importante não te apoiou.

Por vezes, não é necessária a explosão. Acontecem pequenos desastres internos, acontecimentos intensos com os quais não lidamos bem quando acontecem. Situações de assédio são as mais comuns. Não estou (só) falando de assédio sexual, mas do assédio moral e do psicológico. Assédio em geral é atribuído a vários comportamentos ofensivos, constantes ou crescentes, da perturbação da ordem pessoal. Você já viu isso no trabalho ou no seu círculo de amizade. É bem capaz que você já tenha sofrido assédio, ou esteja sofrendo. Esse tipo de ataque, sendo de qualquer natureza, mina a vítima. Por vezes a vontade é até de aceitar que essa agressão te defina.

Em ambos os casos, o resultado é ruim para quem está a sua volta, mas principalmente para você. Nesse ponto você está sofrendo por algo que não é você. Não te define. Mas sim, é a representação de tudo o que de ruim ficou guardado, com o que não lidou. Não é mais o belo vale, mas a enchente da barragem que estourou. E se encontrar no meio de tudo isso é, por vezes, demorado e dificílimo, quando acontece. Há quem se perca nessa situação.

Lidando com suas emoções

O mais importante é reconhecer as suas emoções. O que te faz feliz. O que te entristece. O que desperta sua ira. O que mexe com sua compaixão. Conheça bem seus sentimentos, o que te motiva, o que te faz perder o chão. Não estou dizendo para colocar em um outdoor, mas que quando sentir, possa fazê-lo de verdade.

Entendendo seus sentimentos, vem a parte mais difícil que é lidar com eles. O que faço quando sentir ternura? Um simples e verdadeiro sorrir é o que faz sentido para mim. O sentimento de ira que me toma quando presencio falta de respeito com outra pessoa, é transformado em imediata retaliação atualmente. Algumas coisas ainda me causam sentimentos mistos, como presenciar o carinho com um bebê, que me causa tristeza hoje por não ser pai, enquanto aquece meu coração.

Lidar com as suas emoções é um caminho individual, pois cada pessoa sente de um jeito. Aprender a reagir de acordo com o que você é, sem amarras do tipo “o que vão pensar de mim?”, vai evitar que represe essa sensação. Melhor: você vai poder viver plenamente essas emoções, sem restrições. Você não é um muro ou uma pedra. Você tem sentimentos e viver suas emoções faz parte de você.

Viver bem suas emoções de acordo com suas convicções também vai impedir o crescimento de qualquer assédio que viva, pois você vai conseguir se posicionar contra o que é nocivo para você. Talvez você também possa desenvolver a auteridade, comumente confundida com a empatia, e ajudar outras pessoas em seu processo de se libertar de uma situação ruim e poder se defender. Ou mesmo sentir melhor uma determinada emoção, conhecendo melhor o íntimo de quem está vivendo a mesma contigo.

Então, se puder dar um conselho, lide verdadeiramente e intensamente com seus sentimentos. Os que te levam a reagir em oposição. Os que te fazem se animar como criança. Os que vão expor para a outra pessoa o que realmente está sentindo. Os que vão te fazer sorrir com os olhos. Os que te deixam triste ou que te deixam alegre.

Então chore. De tristeza quando assim se sentir. De alegria quando estiver alegre. Ou simplesmente porque quer. Só seja você nessas lágrimas.

Este texto faz parte de uma série de doze textos, os quais estão sendo compostos cuidadosamente para que possas refletir sobre o ponto fundamental de sua vida: Você! Ao longo dessas linhas vamos nos aprofundar em questões delicadas, portanto conto com seu apoio, assim como tens o meu, para cuidar de ti. De estar bem consigo. De poder dizer que está melhor do que agora. Que seja um #novoeu!

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Última atualização em Mar 13, 2022 22:57 UTC
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