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O tempo não é seu inimigo

Quantas vezes já ouviu ou disse "eu não tenho tempo"? O tempo é igual para todos e vamos fazer ele trabalhar ao seu favor de hoje em diante!

Nos últimos anos, quando escuto (ou leio) que alguém está sem tempo, vários pensamentos passam na minha cabeça. Desde tentar entender o que levou a pessoa a ter essa sensação, ou qual a rotina dela no dia a dia e até desenhar um possível processo para tirar ela desse lugar, quando eu a conheço bem. O fato é que deixamos com o tempo a culpa pela nossa desorganização.

O tempo é essa dimensão infinita e unidirecional (até que um DeLorean apareça na minha porta) que não para. O tempo é um fenômeno e, mais que isso, uma força da natureza de nosso universo. É uma grandeza física, assim como o Espaço, a Matéria e a Energia. Ele simplesmente está lá e sua força age por todos os átomos da existência como a conhecemos. E todos nós somos afetados de maneira muito similar por ele, salvo o pessoal da Estação Espacial Internacional. Resumindo: a não ser que você esteja sendo afetado por um campo gravitacional que não o da Terra ou seja alguém que acesse a Força de Aceleração, está sujeito a ação do tempo como qualquer outro mortal.

O problema não é o tempo

Normalmente nos organizamos tendo o tempo como base. Pense na sua rotina diária. Hora de acordar, trabalhar, estudar. Agora pense nos seus afazeres: o sprint de duas semanas, o relatório que levará 3 dias para ficar pronto, o semestre da faculdade. Não há nenhum problema aqui pois estamos falando de uma convenção e isso facilita a comunicação. Mas e se eu te disser que quando você coloca o tempo como o objetivo, ele acaba sendo justamente o que te faz ficar desorganizado.

O tempo não para (não para não, não para 🎶). Seu ritmo é constante e avassalador. Mas eu, você e todos nós não temos esse ritmo. Somos frágeis. Precisamos nos alimentar. Temos dor. Sentimos prazer. Cada parte do nosso corpo funciona do seu próprio jeito e o todo continua vivo pelos diversos sistemas a partir do ritmo do coração. Nós interagimos com outros seres com ritmos diferentes dos nossos. É impossível relativizar o tempo com o nosso ritmo.

Mas continuamos colocando o tempo como objetivo. Terminar a tarefa X na próxima meia hora, guardar dinheiro até o fim do mês, marcar a data do casamento. O tempo é exato. Nós não.

Mas o mundo dos negócios e o mercado de trabalho está todo fundamentado no tempo. Sim, infelizmente é uma realidade. Não há o que fazer com isso, principalmente quem só sabe fazer as coisas de um jeito que “funciona”. Não quero propor aqui uma revolução em como o mundo enxerga o tempo. Mas como você lida com ele.

Lidando com o tempo para o tempo

Eu proponho uma mudança um pouco mais sutil. A ideia é deixar nossos afazeres a mercê do objetivo, da ciência do que deve ser feito e da simplicidade, com o tempo sendo coadjuvante.

Hoje temos a “hora do almoço”. Aquele tempo do dia que “paramos de trabalhar” (sei que você fica de olho no relógio) para nos alimentarmos. Horário esse no qual normalmente você não aprecia a comida, pois a está simplesmente comendo rápido para descansar o máximo que puder ou, no pior dos casos, voltar a trabalhar quão antes. E se você se preparar para almoçar, assim como se prepara para trabalhar? Será a próxima coisa a fazer depois da última reunião da manhã. Seu objetivo é se alimentar, então faça-o adequadamente, esteja presente para isso. Depois você voltará a trabalhar.

O que sugiro é que esteja presente em cada coisa que tenha para fazer, para você ou para o seu trabalho. Ou para sua família. O para o que quiser. O tempo não vai mudar. Tendo plena ciência e presença em cada coisa que faz te fará pensar no caminho mais efetivo para realizá-lo, sendo o objetivo a recompensa. O tempo vai passar ao longo da execução, mas ele não deve ser o fator principal para a execução.

“E como lidar com o relatório que estou fazendo? Precisa ser entregue até hoje a tarde!”. Se é possível que seja realizado nesse tempo, e você focar no que deve ser feito ao invés da hora da entrega, provavelmente você terminará até antes. Se não for possível, negocie um novo prazo. Você só saberá se é possível ou não conhecendo o que deve ser feito e estando por inteiro nisso. Isso vem com a experiência. Você deve conhecer bem como fazer relatórios, a natureza dos dados da sua organização, a ferramenta de consolidação desses dados e o objetivo deste relatório existir.

Eu tenho alguns conhecidos que não vivem com as mães de seus filhos e alguns passam “fins de semana” com eles. O objetivo é terminar o fim de semana ou ter a melhor experiência do mundo com seu filho enquanto ele está contigo? Veja, o tempo está lá, você ainda terá o seu relógio ou smartphone para te avisar o momento de deixar a criança com a outra pessoa, mas estar com seu filho, presente, para ele é a parte mais importante.

Enfim a hipocrisia

Como comentei acima, não é algo que se consiga fazer do dia para a noite. Eu lidero um time para uma empresa, que tem acordos baseados em tempo. As próprias organizações internas dependem umas das outras e o atraso em uma delas pode gerar uma desastrosa reação em cadeia. Não estou propondo que você não estabeleça prazos ou que deliberadamente atrase suas tarefas.

Esclarecendo: no âmbito pessoal, que o tempo não seja a sua principal preocupação. Estar por inteiro no que faz é mais importante. Muito mais. Devemos usar o tempo, não sermos usados por ele. O tempo deve ser a sua ferramenta para melhorar. Para que você possa usar o tempo que tem pra ti da melhor maneira possível.

Esse não é um papo sobre produtividade, mas sobre bem estar. Em todos os aspectos da sua vida. Experimente trocar o “entregar no prazo” por entregar da melhor maneira possível, que por acaso alguém está esperando em um determinado horário. Colocar o prazo em primeiro lugar nos leva a focar no tempo e não no que deve ser feito.

Quer fazer melhor usando o tempo a seu favor? Analize-se. O que você deixa de fazer que faz com que o prazo te preocupe? E o que faz que não é necessário? Estes ajustes vão te fazer se entender melhor. Entender o seu ritmo.

Se entender é das coisas mais difíceis e doloridas. Você tem que entender que não é um ser perfeito. Longe disso. Mas entender as próprias limitações pode te levar a ultrapassá-las, sem deixar de tê-las. Seja falta de foco, procrastinação ou qualquer coisa que te tire, mesmo que mentalmente, do que é importante.

O tempo, o momento e o futuro

Duvido que algum negócio sobreviva com a meta de simplesmente as pessoas fazerem em menos tempo. Mas aposto que todas querem que as pessoas façam o melhor, o que implica no tempo que isso leva. E, se fazem mais rápido, podemos dar mais trabalho para elas, pagando o mesmo, não? Isso não é eficiência, é oportunismo barato. Eu acredito que em algum momento o mercado em geral vai pagar as pessoas pelo trabalho, e não por X horas trabalhadas.

Também acredito que se as organizações investirem em ambientes mais prazerosos, onde o excelente é mais valorizado que o rápido, haverá ótimos resultados, a curto e longo prazo. Soluções melhores, processo que agregam valor e pessoas que querem fazer o que estão fazendo, não só pelo salário no fim do mês.

E fora do âmbito profissional isso também se aplica. Quando você investe em melhores experiências para si, independente de quando ou por quanto tempo aconteçam, você as aproveita melhor. Um jantar, um filme, um papo com amigos ou uma noite de amor. Estar presente e aproveitar cada momento, textura, cheiro, aprendizado ou mesmo um olhar será algo que vai querer cada vez mais, cada vez melhor. E veja que não estou falando de investimento financeiro, mas sim de presença.


Me conta, quando foi a última vez que esteve presente na sua própria vida?

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Última atualização em Sep 05, 2021 19:47 UTC
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