O que é ser homem?

Não é sobre X e Y. Não é somente sobre masculinidade e como é distorcida. É principalmente para homens, mas também a quem não o é.

Este texto é um pouco diferente dos demais. É uma carta aberta endereçada para todos os homens que conheço. Também para os que não conheço. Mas peço a leitura de todos e todas - incluso quem não se identifica com um gênero em específico. Com esse texto não quero me posicionar acima do bem e do mal, longe disso. Ainda tenho muito o que aprender e aqui só estou canalizando um pouco do que minha jornada já me deu.

“Eu fiz <insira aqui um ato de caráter duvidoso>, porque sou homem”. Com sinceridade, quantas vezes você ouviu isso no último mês? E hoje? Há muito tempo isso me traz desconforto e incomoda. E, normalmente, ouvimos declarações desse tipo ante a um ato negativo, exceto para o “homem”. E homens podem fazer o que bem entenderem, por serem “homens”? Não. Isso não é ser homem. Machismo nada mais é que uma camada nociva que permeia a sociedade, na qual homens fracos se armam, pois nada têm a oferecer e contribuir. As vítimas infelizmente se enfraquecem nessa névoa e são subjugadas por pessoas fracas, de mente e espírito. Machismo é a ilusão de que o homem é superior, e nossa sociedade e cultura foi construída nos últimos séculos em cima disso. Não à toa, papéis que a princípio eram “menores” e delegados às mulheres, foram tomados pelos homens assim que começaram a ter destaque.

Mas o que é ser homem? Essa é uma questão complexa e começa com biologia. Quando falamos de genética, existe uma gama de possibilidades, embora em sua vasta maioria as pessoas são geradas com genes XX e XY - o que levam a bebês do sexo feminino e masculino. Estes genes definem várias características biológicas, além do óbvio órgão genital. Os hormônios que atuarão em uma vida nascida do sexo masculino atuarão nos pelos do corpo, na musculatura, no desenvolvimento corpóreo, na flora intestinal e até mesmo no sistema imunológico de maneira diferente de quem nasce sob o outro par de genes. Há também combinações genéticas especiais que, em virtude do objetivo deste texto, não vou me aprofundar.

Quando falamos de reprodução, um dos alertas do corpo feminino mais comuns é lembrado todo mês que o período fértil já passou e dispensa tudo que o corpo gerou para se preparar para uma gestação, com toda a musculatura da região fazendo um esforço enorme para tal. Isso leva a uma avalanche de ações de hormônios, levando a alterações no corpo, de humor e até de libido, fora a dor envolvida no processo. Quando esse grupo recebe o gameta “complementar” pode acontecer uma gestação, quando uma nova vida é gerada e, por nove meses, esse grupo a nutre dentro de si e não à toa, “parto” é comumente associado a algo doloroso e difícil. Mas há um limite e este tipo de corpo torna-se infértil em algum ponto da vida, quando também cessam os lembretes mensais. O outro grupo é fértil por toda a vida e a ação hormonal é bem mais estável.

Para além da biologia

Biologicamente, não há mulher e homem: são homo sapiens, adultos, de gênero feminino e masculino. O conceito de homem e mulher são da sociedade. Em algum momento da história de diversas civilizações, a biologia foi fator determinante sobre as relações de poder, dado o nível de importância de suas características para aquela tribo ou vilarejo. De alguma maneira isso se perpetuou, mesmo com a divisão e evolução de trabalho e de meios produtivos. Homens podem isso, mulheres podem aquilo - ou não podem. Hoje em dia vemos isso com clareza na política: treze dos oitenta e um senadores do Brasil são mulheres, na câmara são 87 de 584 deputados federais. Poderia elencar vários países nos quais a situação é bem parecida. Mas esse texto não é para falar sobre essa diferença, ao menos não diretamente.

Por conta do papel secundário que a sociedade “moderna” empurrou às mulheres, as mesmas ações têm diferentes julgamentos, a depender do gênero do ator. Inclusive, uma fala em trailer do filme “Doutor Estranho no multiverso da loucura” me chamou a atenção. Em dado momento a personagem de Elisabeth Olsen diz “Você quebra as regras, e se torna um herói. Eu quebro e me torno a inimiga. Isso não me parece justo!” para o protagonista de Benedict Cumberbatch. O contexto dos personagens é bastante específico, mas não está longe da realidade. Um pai passeando ou brincando com os filhos é sinal de um pai carinhoso enquanto vemos uma mulher brincando com os filhos como sua obrigação.

Mas então é isso? Ser homem se resume a aceitar que a sociedade é assim e, por consequente, agir assim? Ser homem é ser macho? Ou ser o bondoso pai que busca o filho na escola? Ser o pegador?

Homem em sociedade

Primeiro falemos do mundo: ser homem é entender o impacto que sua existência tem para o planeta. Sim, você causa impacto, mesmo entre outros bilhões de homens. Você é um ser vivo como todos os outros. Nesse ponto, homens e mulheres têm impactos similares. Ambos podem ter impacto positivo a partir do que causam de bom ou ruim na sociedade. Atente-se para o fato de que ter um animal de estimação A ou B, a cor da roupa que veste e os adereços que usa não o fazem mais ou menos homem. Sua decisão consciente sobre cada ação e o impacto que ela tem podem te definir melhor.

No meio em que vive, você pode ter impacto hoje. Principalmente se compreender que homens, mulheres, pessoas LGBTQIA+, de todas as etnias e culturas, com ou sem fé, com ou sem deficiência, independentemente de onde nasceu, têm o mesmo sangue vermelho que corre em suas veias. Nenhum destes atributos faz ninguém ter mais ou menos voz que os outros. Nem poder. Nem direitos. Ou pelo menos não deveria, pois em nossa sociedade ainda há muita discriminação. Seu papel como homem é agir contra isso. Não precisa começar uma manifestação (agora). Só de entender que diminuir outra pessoa, por qualquer diferença que ela tenha de você é uma ofensa, já te torna melhor que a maioria. Se puder não reproduzir esse comportamento em suas atitudes, será um ótimo próximo passo.

Ser homem hoje é um privilégio. Não deveria. Você pode andar sem camisa na rua sem ser um atentado ao pudor. Não é julgado ao amamentar, pois você não amamenta. Não ouve “elogios” todas as vezes que caminha na rua. Não é interrompido em suas falas por uma manutenção equivocada de poder. Não é tocado sempre que alguém se dirige a você. Quer ser homem de verdade? Não agrave o problema. Não o dissemine. Não reproduza esse comportamento infantil. Não o ensine, nem o perpetue.

Veja que até aqui, isso vale para qualquer um. Nascidos sob qualquer gênero, sob qualquer identidade de gênero. Mas normalmente os “homens” não agem sob esse valor básico chamado de respeito. Em resumo, respeitar é um princípio básico sobre viver em sociedade, mesmo em uma na qual você é privilegiado pois nasceu com um determinado conjunto de genes.

Se conheça

Uma coisa é o que é dito ser homem. Outra é de fato sê-lo. Aqui quero abordar o que de fato é importante sobre ser homem.

Ser homem, se assim você se identifica, independentemente de como nasceu, é entender sobre suas capacidades e limites. Começando pelo seu corpo: o que você pode ou não fazer. Uma corrida deixa seus joelhos doendo, então você pode usar a caminhada para fortalecer a musculatura. Obesidade pode trazer uma perda de estímulo para atividade física, o que inclui o sexo, por exemplo. A partir do momento que você entende como seu corpo funciona, trate-o da melhor maneira possível, dentro das limitações que tem.

As mudanças físicas, principalmente a limitação que o tempo pode trazer, não são uma condenação, mas uma oportunidade de adaptação. A idade pode influenciar, por exemplo, na libido e até na qualidade da ereção para o ato sexual. Seu corpo muda com o tempo e entender essas mudanças é fundamental para sua qualidade de vida. Aos 20 é comum que a uma alta quantidade de transas não seja um problema, o que muda aos 40 e diminui ainda mais quando falamos de 60, ou 80. Então que tal investir mais na qualidade do prazer? Em breve vou abordar melhor esse tópico.

Outra área de si que vale a pena adentrar é a mente. E essa sempre precisa de uma atenção especial. Todas as sinapses criadas ao longo dos anos só se acumulam. Infelizmente há algumas doenças que levam ao comprometimento do cérebro. O melhor que temos a fazer, assim como com o corpo é manter nossa cabeça ativa. O desafio aqui é encontrar o equilíbrio ideal para que também não seja tanta atividade que leve a uma condição negativa. Mais uma vez a palavra é se autoconhecer.

Normalmente homens não aprendem a ser independentes de fato. Isso acaba vindo com a idade na maioria das vezes, quando vem. Não estou falando de independência financeira. Falo do emocional. Para a maioria é sempre necessária a aprovação do grupo, fazer parte. A tentativa de dominação de uma relação afetiva é mais um traço dessa obsessão, onde a parceira acaba sendo obrigada a suprir essa carência. Estou falando de uma maioria que disfarça isso no machismo, autoritarismo ou mesmo sendo “cidadão de bem”.

Mulheres acabam se preparando melhor pois têm que lidar com mudanças impactantes no corpo logo cedo e têm normalmente o apoio da figura materna. Os meninos não contam com esse apoio das mães integralmente pois elas não têm como falar do corpo masculino; os pais não atuam normalmente em formar essa parte pois estão sendo os “chefes de família”, ou mesmo nem têm isso formado dentro de si para ensinar. Infelizmente, por melhor que seja a preparação para a vida adulta, temos uma sociedade que ainda leva qualquer um que não seja “homem, hétero, branco” a ter um esforço gigante para sobreviver no dia a dia.

Autoconhecimento é libertador. E só você pode se dar esse, que é o maior presente que você pode se dar. Ainda é o melhor, mesmo se considerarmos a dor que esse processo causa e o tempo que leva. Eu mesmo posso dizer que ainda estou no meio da minha jornada. Há quem coloque o autoconhecimento em um patamar até espiritual. Eu vou por uma linha mais pé no chão, embora isso seja também parte da minha estrada. Prefiro dizer que se conhecer é fundamental para interagir com o mundo a sua volta, pois saber seu comportamento, forças e limites contemplam um canal de comunicação compatível com outros sete bilhões de seres que igualmente têm suas forças e limitações.

Então…

Mas então, ser homem é ser que nem mulher? Pelo que falei até aqui sim. Mas muitos “homens” não agem como qualquer pessoa civilizada poderia ser. Por civilizado, entendemos que é alguém que vive na civilização, que compreende tudo sob o aspecto social, político, econômico e cultural de como vivemos. Em suma, descrevi até então o que é ser uma pessoa que vive em sociedade. E sim, isso é ser homem. E mulher. E simplesmente ser, independentemente de como você se veja.

Tudo isso que está estabelecido também afasta os homens de serem eles mesmos. Seja pelo medo de ser julgado (sim, homens têm medo, a maioria só não admite), seja pois não vão suportar de maneira mais difícil (é, você não é de ferro). Espera-se nos cenários mais comuns que o homem seja forte, firme, resistente, decisório, rude e insensível, entre outros tantos adjetivos.

Ser homem de verdade é sim ser forte, mas também admitir ser frágil. Não é problema nenhum verbalizar que não consegue fazer algo e pedir ajuda. Ser homem é ser firme, mas também chorar ao se emocionar. Isso é normal, as pessoas se emocionam - você também pode. Você também pode ser afetuoso. Ser simplesmente simpático de verdade, sem interesses. Você também pode se irritar, como qualquer pessoa faria e principalmente entender os motivos para isso sem ser um mecanismo de defesa. E entender a ira alheia e ter compaixão para compreender.

Se você se relaciona uma mulher, aproveite para entendê-la melhor. Para apoiá-la nos altos e baixos mensais. Se você tiver a oportunidade de ser pai, seja o suporte que ela vai precisar pois ela está fazendo o mais importante, carregando o filho de vocês com ela, e por si só é uma benção e um esforço incomensurável ao longo da gestação, no parto e ao longo da amamentação. Você não precisa se relacionar afetivamente com uma mulher para ser um homem melhor para elas, começando por tratá-las realmente como iguais. Respeito e zelo sempre serão fundamentais em qualquer relação.

Se você é pai, seja alguém que participa ativamente do crescimento de seu ou seus filhos. Mesmo se não estiver mais em um relacionamento com a mãe - a responsabilidade é dos dois. Ajude sua filha no que você for capaz de proporcionar a ela. Para o seu filho, seja o pai que o levará a ser independente com o próprio corpo e mente na vida. E simplesmente seja o que você realmente acredita que seja uma figura paterna, a mesma que você precisou (ou precisa). Seja uma referência saudável para eles.

Por fim, ser homem deveria simplesmente ser. Ser autêntico. Poder se expressar de verdade. Poder amar de verdade. Ser homem deve ser um privilégio assim como é um privilégio ser mulher e é um privilégio ser o que você quiser. Se você como homem puder proporcionar que as pessoas à sua volta possam também ser o que elas são em seu íntimo, terá entendido a mensagem.

Ser homem é chorar, é rir, é se emocionar. É poder não fingir ser viril 100% do tempo. É poder recusar um futebol com os amigos para jogar videogame em casa. É poder decidir se vai usar barba, se depilar, usar brinco ou fazer uma tatuagem. É ser responsável consigo e com todos a sua volta. É ser amigo. É ser amável. É poder fazer escolhas. É poder ser igual a qualquer outra pessoa. É poder ser único também. É poder fazer a diferença. É poder querer ficar consigo. É admitir ser quem você é. É, sobretudo, ser humano.

Este texto faz parte de uma série de doze textos, os quais estão sendo compostos cuidadosamente para que possas refletir sobre o ponto fundamental de sua vida: Você! Ao longo dessas linhas vamos nos aprofundar em questões delicadas, portanto conto com seu apoio, assim como tens o meu, para cuidar de ti. De estar bem consigo. De poder dizer que está melhor do que agora. Que seja um #novoeu!

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Última atualização em Mar 02, 2022 16:25 UTC
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