Photo by Nick Russill on Unsplash
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O poder do NÃO

Breve interpretação do comportamento costumaz do letífico alheio e os efeitos negativos ao eu.

Ah, o arrependimento. Quando nos damos conta nossa vida passou e não aproveitamos. Agradamos a todos. Fizemos tudo o que disseram que era necessário para sermos felizes. Seguimos todas as frases de efeito, como aquela que fala sobre ser feliz ou ter razão. Tudo para chegarmos a tal ponto da vida e perceber que aceitamos tudo o que nos foi proposto por outrem. Agradamos a tudo e a todos. Ainda assim temos a percepção que não está bom para nós.

Desde a mais tenra idade somos condicionados a agradar todos a nossa volta. Para alguns se reflete em ter bons modos a mesa. Para outros ter boas notas. Nenhum desses itens em si são coisas ruins - o problema é o motivo. Na maioria das vezes o fazer algo bom e importante para nosso crescimento em sociedade está atrelado a agradar os pais ou mesmo avós. Quem nunca teve que se vestir de uma determinada maneira para receber uma visita?

Na adolescência passamos a agradar um novo público: nosso novo círculo de amizades. Queremos fazer parte do grupo, não? Seja repetindo um comportamento de matilha, com os assédios “comuns” a essa idade, ou a experimentar algo que virá a tornar-se um vício. Provavelmente sua primeira vez a fazer amor com alguém tenha sido motivada mais para agradar o anseio de não ser mais virgem do que para ser uma nova experiência a ti.

Então vem a vida “adulta”. Encontramos uma pessoa legal para ter um relacionamento afetivo e logo temos que namorar. E quando namoramos, temos que casar. E quando casamos temos que ter filhos. Escolhemos um curso superior baseados no mercado, ou até mesmo no que nossos pais gostariam que nos tornemos. No trabalho temos que agradar a chefia, os colegas, a organização.

Quantas vezes nossas decisões foram um “sim” para agradar qualquer um, menos nós?

Não

Não somos estimulados a dizer não. A contestar. Sempre somos levados a aceitar. A primeira coisa que precisamos quebrar nesse ciclo vicioso é que não somos obrigados a agradar quem quer que seja. Sempre estamos a nos preocupar com a consequência social de não atender os anseios alheios. Dificilmente consideramos as consequências pessoais de nossas decisões.

Uma coisa que acredito que deveria ser ensinada desde a tenra infância é que devemos sempre nos priorizar. Nossa educação deveria, entre as diversas áreas do conhecimento, nos levar a ter mais ciência sobre nosso corpo e mente. A sermos mais críticos sobre como o mundo nos afeta. E ensina, mas não com o foco em nós - sempre em outrem. Acredito que viver em sociedade começa sobre nos entendermos como indivíduos.

Não estou a desenhar um modelo individualista de vida. Eu menciono acima que devemos nos priorizar, não a ignorar o outro. Somos seres sociais, por mais que algumas pessoas sejam mais reclusas. Invariavelmente estaremos em contato com outras pessoas, de nossos familiares a um desconhecido na rua. O que incito à sua reflexão é que nas decisões que tenham efeito sobre ti e outras pessoas, considere antes de mais nada as consequências para si, para então considerar as consequências alheias.

Também não quero te levar a um extremo de simplesmente negar qualquer coisa que não seja de seu agrado. O que provoco aqui é a reflexão sobre o nosso bem-estar nas decisões que tomamos. E que está tudo bem em dizer não a algo que não te agrade. E algumas vezes precisaremos dizer não a nós, após considerar todo o contexto, por um bem maior ou em conjunto, o que também está bom. O que não podemos é simplesmente nos deixar de fora da equação.

Falar é fácil

Por vezes estamos de maneira tão profunda nos moldes de agrado ao outro, causando-nos imensa dor no simples pensar em desagradar. O que pensarão de mim? Todos pensarão que sou do contra. Será que estão certos ao dizer que é frescura da minha parte?

NÃO! Se não te faz bem, não está bom. E deves dizer. Tens a preocupação de que esse não será mal recebido? Que será uma mudança súbita de comportamento e os que estão a sua volta podem sofrer negativamente com isso? Assim como sofreste até agora com isso?

Algo que não nos ensinam é que nós somos os únicos que temos que lidar com o que sentimos. Assim como cada pessoa é responsável por sua própria compreensão a respeito do outro. Assim sendo, como podemos controlar o que estão a perceber sobre nós? Não podemos. Assim como as outras pessoas não têm como controlar como nós as percebemos.

Dizer um “não” a algo que não lhe faça bem pode sim afetar outra pessoa - e esta terá que lidar com isso. Seria muita pretensão de nossa parte querer ter esse nível de controle. Mas também é um alívio ter ciência que ninguém o tem, ao menos como um poder especial ou algo do gênero. Sim, essa premissa de sempre aprazer outrem permite-lhes que sim, tenham controle sobre nós. Que tal quebrar esta jornada autodestrutiva?

Se a ti é doloroso dizer não, sugiro então um outro exercício: pondere e deixe visível que está a ponderar quando couber a ti uma decisão. Pondere sobre o seu bem-estar a curto e médio prazo. Pense sobre o que esta decisão representa a si como indivíduo. Os prós e contras para todo o contexto envolvido. Só o fato de não aceitar de imediato já fará os interlocutores prepararem-se para uma resposta diferente do habitual. E está tudo bem. Ao prosseguir, tendo considerado a si como variável primária na equação dessa decisão, expresse sua resposta. Estou certo de que estará mais distante do arrependimento assim.

É sobre o eu

Como dito anteriormente, é sobre termos real responsabilidade, respeito e carinho com nós mesmos. E isso também deve estar em nossas decisões a respeito de nós. Como decidimos nossos próximos passos. O que nos faz bem, mal, o que devemos tirar da nossa vida. E principalmente: o que queremos atrair a ela.

Há aquelas decisões que precisamos tomar conosco: ficar em casa ou sair. Deixar o sedentarismo. Nos alimentar melhor. Não sou nenhum guru fitness - estou bem longe disso. Mas perceba que, de certa maneira, adiamos alguns objetivos em prol de um prazer imediato. Não há problema algum nesse tipo de “recompensa”, desde que essa satisfação momentânea não se torne a rotina.

Me descuidei bastante do meu corpo desde o começo de minha jornada à caverna ruim. Mesmo quando já estava no caminho de deixá-la eu ainda fazia um movimento tímido de saída do sedentarismo e em 2020 tudo foi abaixo novamente e deixei novamente de me exercitar. Quando a decisão de me mudar de país estava mais clara tomei uma decisão contraditória: priorizar a psiquê ao corpo. Não me preocupei com o corpo conforme avançava nos temas para alcançar meu objetivo. Mas tinha uma condição: ao alcançar, voltar a dar atenção ao corpo. E é isso que tenho feito desde que me mudei. Caminho ao menos 6 dias por semana. Como melhor. E não deixei de trabalhar a mente, agora sem a ansiedade de todas as coisas que minha mente produziu que poderiam dar errado no processo. Tenho cuidado de mim por inteiro agora. Mas foi uma decisão consciente. Mas é só um exemplo.

Não podemos reclamar que não estamos satisfeitos com nosso corpo, ou com nosso estado profissional ou acadêmico, sem tomar ações para mudar o status quo. Então, às vezes, é preciso dizer não a um prazer momentâneo em prol de uma alegria duradoura. A não ser que estejamos plenamente cientes das consequências e dos percalços inerentes a nossas decisões.


Há tanto a falar nesse tópico. Nenhuma outra pessoa é responsável por suas ações e decisões. E ninguém deve. Assim como nenhuma outra pessoa é responsável por seu bem-estar. Decidir por algo que vá contra sua satisfação, apenas para o agrado alheio, sempre trará consequências a ti, que nenhuma outra pessoa tem a responsabilidade de reparar.

Acredito que a metáfora que melhor define esse assunto é a que ouvimos da tripulação aérea antes da decolagem: “Coloque a máscara primeiro em você, depois ajude se alguém precisar”. Se não houver você, não poderá ajudar ninguém.

Priorize-se.

Este texto faz parte de uma série de doze textos, os quais estão sendo compostos cuidadosamente para que possas refletir sobre o ponto fundamental de sua vida: Você! Ao longo dessas linhas vamos nos aprofundar em questões delicadas, portanto conto com seu apoio, assim como tens o meu, para cuidar de ti. De estar bem consigo. De poder dizer que está melhor do que agora. Que seja um #novoeu!

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Última atualização em Nov 14, 2022 23:24 UTC
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