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O poder da experiência

Dentre as diversas maneiras de aprendizado, quero abordar uma das que mais são deixadas de lado - e a que menos deveria.

Hoje temos diversas maneiras de aprender praticamente o que quisermos. Vídeos, livros, palestras, tutoriais, cursos e escolas são algumas das principais fontes de conhecimento disponíveis. Acredito que cada uma delas têm seu valor no aprendizado e tornam-se ainda mais efetivas conhecendo-as melhor e usando-as de maneira efetiva.

Há uma outra maneira ainda, tida como a que melhor consolida o aprendizado: o ensinar. Ao preparar um curso, uma palestra, um texto para um blog, você acessa diversas áreas de sua biblioteca de conhecimento para construir o caminho que quer abordar para apresentar o que deseja. O planejamento, o desdobramento das ideias, o aprofundamento de cada assunto, a aplicação na mídia de consumo, o treinamento e a utilização de todos estes itens, inclusive a apresentação em si, levam você a um novo nível de entendimento sobre o assunto, mesmo que já o domine. E isso vai além, considerando a devolutiva e reação.

Mas há ainda outra maneira de aprendizado. Mais sutil e comumente desprezada. A evolução e troca de experiência.

Independente se estamos falando do espectro profissional ou pessoal, nossa vivência proporciona oportunidades de aprendizado constantemente. E, principalmente no início, ignoramos a maioria desses momentos. Embora conviver com nossos pais na infância tenha muito do aprendizado que eles desejam para nós, é impossível aprender nuances da convivência deles pois ainda não temos discernimento para entendê-las. E acabamos por não nos interessar por elas no futuro, pois são nossos pais.

Quando começamos nossa carreira profissional acabamos por idealizar alguma pessoa que julgamos ser a referência. Tentamos aprender como ela trabalha, quais as ferramentas que utiliza, os processos do dia a dia e até mesmo mimetizamos possíveis comportamentos - como as idas constantes à máquina de café. Compramos o mesmo computador, editores, o mesmo livro que vemos sobre sua mesa, numa tentativa de chegar o mais perto possível daquela idealização. E acabamos por estar ainda longe ainda do que de fato seria o mais importante: o caminho daquela experiência. Quais decisões aquela pessoa tomou no passado que a levaram onde ela está? Quais os contextos nos quais ela estava inserida nas diversas fases de sua jornada?

No dia a dia é comum ver as pessoas mais velhas terem ideias e conceitos datados. Seu jeito de realizar determinadas ações, ou mesmo a lógica aplicada, não parecem práticas. Mas também por vezes os resultados que elas obtêm são mais consistentes e previsíveis por elas. Qual o fenômeno aqui? A questão não é a idade aqui, mas como de geração em geração há um abismo na linha de raciocínio para os mesmos temas. E elas normalmente só recebem como resposta que seu jeito de pensar está obsoleto. Será?

Não quero entrar no mérito do “na minha época era diferente”. Quero me aprofundar no que cada geração viveu e como isso moldou como seu plano decisório. Por exemplo: há algum tempo, era comum falar em compra de imóveis como a primeira grande realização que alguém pode ter na vida. Hoje em dia é mais comum falar sobre o “primeiro milhão”. Qual está certo? Vale lembrar que há algumas décadas a inflação era de números absurdos e um imóvel era algo que se comprava por um determinado valor e se valorizava muito em pouco tempo. Hoje o imóvel ainda se valoriza, mas é praticamente impossível comprar um desses à vista. O ponto é que isso era reproduzido como se a situação ainda fosse a mesma. Se você ouvir simplesmente que “imóvel é um bom investimento” por alguém que viveu nessa época, vale a pena entender o porquê desse pensamento, por mais que não se viva a mesma situação hoje em dia. Sabendo disso, provavelmente você pode fazer um paralelo até com o mercado de ações ou criptomoedas.

Considerando as diversas pessoas com as quais convivemos, mesmo que virtualmente, podemos aprender muito - principalmente se formos além da superfície. Entender como cada pessoa toma suas decisões baseado em como ela construiu sua biblioteca de conhecimento. Como elas se motivam para realizar determinada empreitada, ao invés de simplesmente considerar que a decisão dela é correta ou não, segundo seus próprios conceitos. Entender que sua história a leva a determinadas falas e projetos que podem não fazer sentido a princípio, mas posso lhe garantir que conhecendo-a melhor, entenderá mais sobre ela e isso contribuirá para seu próprio aprendizado.

E por que não fazer o mesmo exercício consigo mesmo? Analisando como toma decisões hoje, e como isso evoluiu ao longo do tempo, como tomará decisões no futuro? O quanto não estar aberto a experiência de outras pessoas tirou de você importantes aprendizados? A altura das muralhas da sua história permite que outros aprendam contigo? Olhar para o seu passado abre ou fecha portas para seu futuro?

Cada pessoa no mundo tem uma história. Cada página dos livros da vida de cada uma delas conta muito além do que podemos vislumbrar hoje pela capa. Deixar de opinar no raso e aprofundar-se na experiência alheia é incrível. Participar desses contos e construir novas linhas para os próximos capítulos é uma experiência que só leva a escrever melhor nossas próprias histórias. E acredite, ninguém gosta de monólogos.

Me conta, o que aprendeu só hoje?

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