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O caminho para a Liderança

O que é necessário para exercer uma boa liderança? O que é desejável? O que é inadmissível? Por onde começar? E o principal: você deve começar?

Começando por uma má notícia: não há receita. Como nada na vida. Se alguém lhe vender a receita do sucesso, desconfie - no mínimo. Cada pessoa no mundo é única e assim cada uma tem seu ritmo, seu tempo, seu processo. Não podemos generalizar algo como aprendizagem ou autoconhecimento, mas isso é assunto para um outro texto.

escrevi brevemente sobre o que é Liderança e sobre algumas definições que fazem sentido para mim. Algo importante para prosseguirmos é que não se trata de hierarquia, mas de responsabilidade. Com o time e com a organização. É estar ao lado, nem acima, nem a frente. É importante salientar que, apesar de popularmente ser colocado na mesma caixinha, é algo diferente de gestão.

Toda história tem um início

Tive muitas conquistas nesse caminho. Ao longo dos últimos 10 anos trabalhei com pessoas incríveis com as quais aprendi muito, pessoal e profissionalmente. Mas meus principais aprendizados vieram dos fracassos, dos feedbacks “ruins”, das demissões que fiz e que das quais passei, dos meus pedidos de desculpa e das coisas que me fizeram chorar.

Prepare-se para momentos difíceis, pois grandes aprendizados vêm com eles.

Minha primeira experiência como coordenador foi colocada no meu colo. “Como assim, você não falou sobre tempo e processo?” - Sim. O que quero dizer é que não foi algo que eu procurava. Eu trabalhava com outras duas pessoas e o meu gestor à época me procurou e disse: “Cara, o que acha de coordenar o time?"; ao responder que não tinha pensado e nem preparo para isso ele respondeu: “Mas você já é o líder deles”, o que me travou por um momento e me fez ponderar a respeito. Naquele semestre inicial eu já havia organizado o nosso processo, estabelecido padrões de qualidade e melhorado o convívio com os outros times de desenvolvimento, além de ter conseguido progredir significativamente nos projetos que tocávamos.

Sim, eu havia liderado aquele time sem nem estar buscando isso. O cargo em si levou outros seis meses para vir, mas atuei independente do que estava no crachá. Fiz o que achei necessário para realizarmos a visão que tínhamos do produto, além de manter o time motivado que, a certa altura, já contava com 9 pessoas.

Enquanto trabalhava para esse time, um feedback me fez repensar muita coisa: “Você é como um tanque de guerra blindando o time”. Pode até parecer bom a princípio, mas era um comentário “negativo” (construtivo de fato). Eu não só blindava, como também atacava quem levasse alguma intempérie para “o que eu estava construindo”. Isso significava o time de produto. Independente de não concordar com muito do que era feito, eu os afastei e a relação se tornou constantemente conflituosa. Além de tirar a oportunidade deles de aprenderem com as dificuldades que eu estava bloqueando.

Primeira grande lição: não é sobre você, é sobre nós.

Tenha ouvidos abertos a todos, mesmo com quem você não concorde. Boas discussões não têm vencedores, mas pessoas que constroem juntas a verdade.

Toda jornada começa com… decisões

Acredito muito que, mesmo que sistematicamente, qualquer pessoa possa ser líder. Algumas precisam de um empurrãozinho, outras têm talento nato. Apesar da capacidade, não acredito que todo mundo deva ser líder. Explico: liderar é trabalhar para pessoas, orientá-las, motivá-las, adequar processos, entre tantas outras coisas. Há uma enorme probabilidade que você seja muito melhor em outras atividades. Liderar é decidir, começando pela decisão de seguir nesse caminho. Ou não o seguir.

Não me refiro sobre síndrome do impostor ou sobre o “medo de não dar certo”. Me refiro a saber que não é um caminho que queira seguir. Ou que saiba que não te fará bem. Ou mesmo que tenha mais prazer em outros tipos de trabalho. Isso é maturidade. E para você que se encaixa nesse contexto saiba que o mercado cada vez mais abraça as pessoas que não são líderes e trabalha nessa carreira “individual”. E não há nada de errado em não desejar liderar.

Dada sua primeira decisão, optando por liderar, tenha em mente que tudo o que virá a seguir vem de tomar decisões. Ir para a linha mais pacificadora, dura ou ir em uma linha mais de mentoria? Abraçar a linguagem X ou Y, biblioteca, framework? Abrir uma nova vaga, selecionar dentre as várias candidaturas que vai receber. Aumento? Demissão?

Sim, você deve se preparar para tomar decisões. Principalmente para as difíceis. Cada indivíduo tem seu processo decisório e ele é único. Como nada no mundo isso não é binário, totalmente instintivo ou racional. E encontrar a relação entre o montante de informação que precisa reunir, o quanto de empirismo envolve e o tempo para tomar decisões de maneira que seja sustentável para ti vai te fazer economizar um bocado com analgésicos.

Os 3 “Is” da decisão: Informação, Intuição e Impaciência. Conhecer a sua relação com cada um deles te ajudará a tomar melhores decisões.

Nem tudo é um mar de flores

Infelizmente as posições de liderança ainda são mais cobiçadas pelo atrativo financeiro. Isso cria lideranças péssimas, na maioria excelentes profissionais no cargo anterior. Isso é algo cultural e vai demorar a mudar para todos. Acredito que em algum ponto o salário de um líder ou gestor será compatível com as pessoas que são igualmente fundamentais no time. Sim, a liderança é fundamental e isso traz consequências.

Com grandes poderes vem grandes responsabilidades. - Parker, Ben

Liderar bem exige muito. Independente do seu estilo, você precisa conhecer o time. E pessoas são complicadas. Muito. É essencial estar atento e presente para elas. Não importa o tamanho do time, você precisa se envolver. Conhecer suas motivações, seus medos, suas forças e fraquezas. Entender que a mudança no tom de voz pode significar euforia ou mal-estar. Individualmente.

E aqui entra talvez o mais difícil, ao menos para mim: tomar decisões isento desse envolvimento. Não estou falando sobre desligamento, ainda. Mas como assegurar que um aumento ou promoção não foi motivada por essa pessoa aceitar melhor suas ideias? Ou decidir por deixar um determinado projeto com Fulano ou Cicrana?

Demissão. Como não misturar a falta de afinidade nesses momentos? E aquela pessoa com quem você se preocupa, entende parte dos problemas, mas a pessoa não se encaixa naquele time? Provavelmente houve um problema desde a admissão, mas é complicadíssimo demitir alguém com quem você se importa. Ao menos se o seu coração ainda está a bater dentro do peito.

E como fazer ao tomar decisões que são impopulares com o time? Como fazer para não ser o carrasco ou, no mínimo, uma “má liderança”? E do lado oposto, mesmo contando com a parceria do time, mas longe das expectativas da organização? Sim, responder a esse mar de questionamentos faz parte do dia a dia.

Ciclo virtuoso

Na minha humilde opinião, o que se busca na liderança de um time é justamente o que você deve fazer como hábito. O objetivo é o caminho. Isso torna essa jornada incrivelmente interessante. É o que me engaja profissionalmente.

Uma das missões na liderança é motivar as pessoas. Na seção anterior eu falei sobre como pode ser árduo estar presente na vida delas. Conhecê-las a fundo, as suas motivações, medos e gatilhos de alegria é também uma benesse. Trabalhar para dar a elas o ambiente ideal de trabalho, conferindo no cotidiano que elas estão felizes com o que proporcionou, é gratificante.

Uma outra tarefa da liderança é promover a evolução profissional, e porque não pessoal, de seus liderados. Acompanhar alguém que entra em seu time com todas as inseguranças do mundo e vê-la se superar dia após dia, colocando muita dedicação no trabalho que faz e, merecidamente, promovê-la não tem preço. Há também o caso no qual você já não trabalha mais com a pessoa e, a cada novo avanço de carreira e de vida dela, você recebe uma mensagem de agradecimento.

Tem sensação melhor do que a entrega de um produto, uma nova funcionalidade ou projeto, no qual você e o time trabalharam sem estresse pois todo mundo estava alinhado? Com todos os testes passando e deploy rodando liso? Sabe aquela vitória que você acaba se dando conta depois de todo mundo estar comemorando? É para chegar nesse ponto que a liderança atua.

Mas uma das coisas mais incríveis e simples que podem acontecer quando você é líder, sem dúvidas, é o novo aprendizado. A cada nova interação, um novo one-on-one, uma discussão para testar uma nova tecnologia ou abordagem: aprender e evoluir assim como você promove com as pessoas que lidera: é indescritível.

O objetivo da liderança é também sua recompensa.

E você vai trabalhar muito para que outra pessoa assuma o seu papel. Você invariavelmente será substituído/a. E a sua principal missão é pavimentar o caminho para isso. Assim como construir os caminhos de sua própria evolução.

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