Photo by Ilya Cher on Unsplash
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Não precisas vencer na vida

Precisas? Se sim, o que é vencer na vida para ti?

Acredito que este seja o texto que mais seja contra o “positivismo tóxico” que já escrevi. Antes de mais nada gostaria de esclarecer que não desejo teu fracasso. Muito pelo contrário: torço muito para que alcance seus reais objetivos. Já adianto que tenho algo desconfortante a dizer sobre isso - e igualmente recompensador.

Vencer na vida

Vencer, no contexto desse texto, é um verbo transitivo; logo não tem significado completo em uma frase por si só. Se faz necessário vencer algo, vencer alguém. Então precisamos perceber contra quem estamos a lutar, ou a competir, na vida. E, se analisarmos bem, há de se entender que não há outro adversário senão nós mesmos. Então, vencer na vida seria vencer a nós mesmos?

Apesar de este ser provavelmente o pensamento mais óbvio, acredito que possamos ir mais fundo aqui. Quando falamos sobre vitórias pessoais, tenho certeza que muitos de nós já nos enfrentamos. Um mirror match. Vencemos nossas limitações e vamos a um novo estado de entendimento sobre nós mesmos. Então avançamos para um novo lugar, o qual devemos explorar e aprender sobre para então nos desafiar novamente. E alcançamos um novo sítio e este ciclo avança mais. Mas este cenário é deveras comum, para algumas pessoas quase que diário, seja no ginásio, trabalho ou academia. Sim, a grande maioria de nós vencemos inúmeras batalhas diariamente, sem sequer nos dar conta disso.

Mas este não é o senso comum. Quando pensas em “vencer na vida”, o que lhe vem à mente? Ter um imóvel próprio? Uma família feliz? Carro do ano? Viajar a cada semestre? Não se preocupar com as contas? Tudo isso junto? Essa é a resposta que provavelmente está no imaginário da maioria das pessoas. Para alguns há ainda a posição profissional de destaque. Para outros há também a fama na lista de desejos. Riqueza! “Vencer na vida” pode ser traduzido como alcançar o status de não ter mais nada a desejar.

Um pouco de realidade

Vamos a primeira má notícia: és um homo sapiens: vais sempre desejar mais. Nós, como humanos, nunca nos satisfazemos. Precisamos de estímulos novos ao longo do tempo para nos saciar. Sempre vamos querer mais. Ou querer algo diferente do que temos.

Como bons humanos que somos, há também a questão da passagem do tempo e as oportunidades que isso traz. Quando projetamos algo para o futuro, como todos aqueles desejos que mencionei antes, é baseado na vivência até aquele momento. Amanhã vais conhecer alguma outra coisa que desperte sua vontade. Hoje ainda não conheces tudo que pode ser objeto de desejo para ti. Nem sabes o que pode vir a ser de teu gosto, que não o é agora.

Segunda má notícia: Esta não é uma vontade nata. A fantasia contada em diversas mídias sobre esse estado de saciedade relacionada aos bens e status social colaborou em construir esse desejo. Há quem cultive esse desejo por meio da ostentação, onde o objetivo é estar em um lugar no qual outras pessoas o invejarão. E, obviamente, a construção que recebemos das pessoas à nossa volta, praticamente a nos ordenar a conquistar este pódio da vitória.

Em suma, há toda uma construção social (e económica) a fim de almejarmos este estado pleno de satisfação pessoal. De maneira geral, há uma ligação forte com as conquistas materiais e profissionais. A necessidade não parte de ti, mas do seu entorno.

Precisar e Desejar

Então estamos errados em querer ter uma vida tranquila? Em querer ter bens que nos tragam conforto? Não, e aqui vem o alívio: definitivamente não há nada errado nestes desejos - principalmente se tu, como indivíduo, realmente desejas essas coisas. Não vou entrar no mérito sobre “ter e ser” (ao menos não agora). O importante é saber que não há nada errado em querer.

Precisar vencer na vida é uma outra questão. Se o “querer” se transforma em “precisar”, dá-se início então à auto cobrança. Com ela, a ansiedade. A frustração vem em consequência caso qualquer coisa saia do controle. Quando algo se torna necessidade, pode vir a se tornar instinto irracional, se colocando à frente de possíveis necessidades mais imediatas.

Sob outra ótica, também devemos perceber quem de fato “precisa” do status, dos bens, do cônjuge. Precisas ou queres casar-se? Caso a resposta seja “precisas”, devemos olhar para a situação com mais atenção. O que lhe falta, para que tu precises do matrimônio?

Um desejo, por sua vez, deve ser agradável de se conquistar. Deve trazer alegria. Prazer. Não um sentimento de fim de tarefa, missão cumprida.

A necessidade de vencer na vida acaba por nos levar à satisfação somente quando conquistamos todas as coisas que imaginamos. Enquanto ainda restar algo a ser conquistado, por mais que tenhas uma excelente vida, ainda não lhe trará satisfação. E isso pode levar anos, décadas. Percebes que, ao longo de muito tempo, as pessoas que buscam essa vitória não se satisfazem? Podem estar em um círculo vicioso de ansiedade e frustração por ainda não terem vencido.

E se quebrarmos este pacote de infindáveis ambições, por desejos individuais? O anseio da casa própria não precisa acompanhar o querer de um carro, quiçá o do casamento. Mas será ótimo quando puder unir-se a alguém que ama, mesmo que estejam a alugar a morada. Então será ótimo comemorar a promoção no trabalho ou mesmo a abertura de um novo negócio. Uma outra alegria pode vir quando mudar de país. Várias alegrias, uma de cada vez. Por que teríamos que ser infelizes até conseguirmos o pacote completo?

Por fim, não precisas vencer na vida. Não tens o dever de nada para além do cívico. Desejo sim que queiras coisas especiais em sua vida. Que possas partilhar intimidade com uma pessoa especial. Que tenhas um lar aconchegante. Que tenhas liberdade para conhecer quaisquer lugares que desejes. Que tenhas uma família incrível, independente do significado que essa palavra tenha para ti. Que tenhas sucesso em suas empreitadas. Que tu possas comemorar cada uma dessas incríveis realizações, sem que pareçam um dever.

Viva a vida!


Este texto faz parte de uma série de doze textos, os quais estão sendo compostos cuidadosamente para que possas refletir sobre o ponto fundamental de sua vida: Você! Ao longo dessas linhas vamos nos aprofundar em questões delicadas, portanto conto com seu apoio, assim como tens o meu, para cuidar de ti. De estar bem consigo. De poder dizer que está melhor do que agora. Que seja um #novoeu!

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