Menos é mais

Vamos além do "qualidade versus quantidade". Precisas de tudo que possui? Ainda não é suficiente? Sabes dizer o quanto tudo isso também te faz mal?

Olhe a sua volta. Caso esteja em sua morada peço que tenhas muito critério e perceba os detalhes. Cada móvel, cada eletrodoméstico ou eletrônico, seus livros; os carregadores e cabos. Embora não esteja vendo, contabilize também os itens que sabes que estão dentro das gavetas e armários. Falando em armários, que tal adicionar nessa lista as roupas que tens. Posso apostar que tem muita coisa que está aí, a sua frente, e que não considerou. Agora uma pergunta: de tudo o que vislumbrou, conseguiria você separar o que usou no último ano e o que está a mais tempo que isso sem uso?

Aqui não está um paladino de programas organização de interiores, pois cá tenho muita coisa guardada também e que considero desnecessária. Mas tenho diminuído cada vez mais o número de coisas a minha volta. Comecei a ter uma visão muito poluída do espaço no qual vivo e isso começou a me fazer muito mal. Me desfiz de muitos itens, mas quero ir além de simplesmente falar sobre poluição material.

Inesperadamente, o caos

⚠️ Atenção: caso seja desconfortável para ti relatos de situações de ansiedade, por favor continue no próximo parágrafo, em “O Gohan, meu anjinho felino (…)”.

No início da pandemia eu me isolei. Muito. Por conta do cenário de longo tempo em home office que estava se desenhando, decidi arrumar um quarto aqui para ter um ambiente de trabalho. E, naquele momento, era a pior decisão que eu poderia ter tomado. Eu tinha muita coisa acumulada naquele recinto. E ao mover alguns armários e itens eu me vi cercado de tanta coisa que me senti pequeno ante tudo aquilo. Preso no chão. Indefeso e incapaz de me mover. Com a sensação de que tudo aquilo me engoliria a qualquer momento. Só consegui chorar, tentando respirar enquanto o sentimento de que meu coração ia pular para fora do corpo só crescia. Não conseguia raciocinar e era certo que eu sumiria no meio daquilo tudo.

O Gohan, meu anjinho felino, pulou por cima dos móveis e veio deitar comigo. Não miou, só se aconchegou. Me olhou e encostou a cabeça na minha. Eu saí da prisão e olhei a minha volta. Recobrei a consciência e compreendi o cenário. Afastei um armário e olhei de fora para a gaiola da qual acabara de me libertar. Aquele foi o sinal de que mais uma mudança precisava ser feita.

Parte dessa mudança era motivada pela quantidade de itens. Vários dos quais eu não dava uso há muito tempo. Outros só estavam ali por um dia terem agradado pessoas, as quais não mais faziam parte da minha vida. Outros itens simplesmente estavam lá e para os quais eu nunca dei uso e nem fazia ideia de como fazer. Eu simplesmente tinha.

Mas o mais difícil naquilo tudo foi realizar o quanto eu era fútil. Muita coisa ali eu adquiri por ter, pois outros não teriam. Era para fazer um papel de nerd que eu mesmo não reconhecia. Para ostentar. Sem sentido dentro do que eu dizia acreditar. E dizia para mim mesmo. E me lembro bem de como adquiri cada um daqueles itens. E o tragicômico fato: que com tudo aquilo, eu era o que eu mais odiava.

Decidi que era hora de deixar a hipocrisia de lado e organizar as coisas, de maneira que me representasse. Tirar o inútil, o que não era meu, o que não combinava com o que sou, o que não tinha espaço na minha vida. Me desfiz de metade da casa, sem exagero. Era um ambiente mais aberto, arejado e espaçoso. Novas coisas apareceram, ainda outras deixaram o lar. Ainda não está como eu gostaria, mas está mais adequado o que sinto necessário e saudável para mim.

Necessário, somente o necessário…

O mote de Balu na animação “Mogli, o menino lobo” (The Jungle Book) era bem pertinente. Mas não entenda “somente o necessário” como o mínimo para sobrevivência. Ao longo dos meses, conforme minha vida passava a contar com uma proporção cada vez maior de itens que condiziam com ela, fui me aprofundando no entendimento do que precisava estar a minha volta. E não era tão somente a sobrevivência fisiológica. Mas a mental e emocional.

Necessário torna-se então o que eu precisava para estar ativo. Sou uma pessoa da tecnologia desde que me conheço por gente, e trabalho com isso. Então tenho que ter coisas de tecnologia, certo? Algumas coisas, das quais preciso para trabalhar, criar e me divertir, mas não além. Uso hoje um “setup” que está condizente com minhas necessidades, que me dão ergonomia e conforto. Nada extra. Mesmo minha área de trabalho não tem ícones, ou muitos programas na barra de tarefas. Apenas o necessário.

Eu gastava muito dinheiro com tentativas de me engajar em alguma coisa. Música por exemplo: tentei tocar de tudo, guitarra, contrabaixo, teclado e percebi que não tenho aptidão alguma para tal. Acabei com uma gaita pois acaba sendo um exercício de respiração também. Roupas e calçados, tinha aos montes, muitas dos eventos dos quais participei ao longo da carreira. Não usava nem um décimo delas. Todas devidamente doadas ao ponto de todo meu armário caber em uma mala simples. Preciso pensar pouco com o que não é importante pensar.

E o que é importante para mim? Este computador onde escrevo e trabalho, o telefone com a câmera para tirar fotos, algo para ouvir música, para fazer meu pãozinho, para comer, para cuidar do Gohan e do meu corpo, para criar e para me divertir. Não necessariamente nessa ordem. Não são os itens mais baratos, nem os mais caros: são os itens que julgo adequados para mim, como eu gosto, do jeito que eu gosto. Nem mais, nem menos.

Fui adequando tudo o que estava a minha volta, de maneira a não possuir coisas que representassem poluição. E, pasmem, comecei a perceber a poluição de uma das cidades mais poluídas do mundo: São Paulo

Compreensão do excesso

Podemos definir poluição como tudo aquilo que, adicionado a um ambiente, o desequilibra, deteriora, altera seu estado natural. Até então, contei sobre a limpeza que fiz sobre o ambiente no qual vivo, deixando-o mais natural a minha convivência. Mas quando você percebe que tem tosse constante por uma atmosfera artificialmente seca, que não consegue enxergar o horizonte à tarde pois há tanta sujeira no ar que o faz refletir a luz do Sol, deixando o céu estranhamente claro e pálido. Então se percebe que havia tanto a sua volta que te faz incapaz de olhar para si.

Falei muito sobre coisas materiais. Mas havia também muita coisa na cabeça que não deveria estar ali. Obviamente, muitos dos itens materiais tinham ligação direta com esses indesejáveis pensamentos. E essas coisas na minha mente me afastaram de muitas pessoas com quem poderia ter aprendido mais e muitas coisas que eu gostaria de ter vivido. Me afastaram de conquistas que eu desejava muito. De oportunidades pessoais e profissionais que não terei novamente. Simplesmente por me cegar quanto ao que era naturalmente eu.

Eu falo de poluição pois acredito ser a maneira mais simples de descrever qualquer coisa que distorça o que você verdadeiramente é. Nem digo com relação ao julgo alheio. Mas sobre a nossa percepção quanto ao eu. As vezes são quinquilharias. As vezes pensamentos. Até mesmo pessoas que insistimos manter ao nosso redor.

Sim, pessoas também podem ser parte da poluição que nos cerca. Pode ser naqueles grupos em aplicativos de mensagens instantâneas, as pessoas na mesa do bar ou até mesmo quem divide a cama contigo. Há aquelas que deixamos que sejam poluentes e, tal qual óleo no rio, pode acabar com todo um ecossistema. Também há aquelas pessoas que tem um rótulo de radioativo na testa e que qualquer pessoa deve manter a maior distância possível. Mas há também aquelas pessoas que são como centros de reciclagem e ressignificam ou ajudam a manter nosso quintal em ordem. E há também as pessoas que aparecem como furacão e nos jogam nos ares, deixando o terreno limpo para começarmos novamente.


Convido a olhar a sua volta e perceber o que é natural para ti - e o que não é. A pensar sobre seu círculo de contatos e entender quem está ali para poluir e quem está para reciclar. E a pensar qual o seu papel para as pessoas importantes para si. O quanto seu ambiente está poluído. E como está aí dentro?

Este texto faz parte de uma série de doze textos, os quais estão sendo compostos cuidadosamente para que possas refletir sobre o ponto fundamental de sua vida: Você! Ao longo dessas linhas vamos nos aprofundar em questões delicadas, portanto conto com seu apoio, assim como tens o meu, para cuidar de ti. De estar bem consigo. De poder dizer que está melhor do que agora. Que seja um #novoeu!

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Última atualização em Feb 01, 2022 11:27 UTC
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