Photo by ella peebles on Unsplash
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Luto de mim mesmo

Manifesto pessoal. Uma carta finalizando a travessia.

Vila Nova de Gaia, 24 de julho de 2022

Para mim mesmo. Ao que se vai e ao que começa a caminhada.

Aqui jaz um menino tornado adulto antes do tempo. Aquele que se culpou ao longo da vida pelo que não fez. Aquele que brigou muito para tentar fazer o melhor a todos, menos a si mesmo.

Morre um ser inseguro e carente. Em alguns momentos no abismo fora salvo, em alguns simplesmente caíra novamente em seu escuro, em seu silêncio.

Perece aquele que depositara a própria felicidade na alegria de outrem. O violentado e o pecador. O arrogante e o humilde. O herói e o coitado. O indeciso.

Morre aquele que fora levado pelas marés.


Este luto não é de hoje. Já é sabido há meses. Anos. Precisava acontecer. Um luto pelo qual tentei impedir a ponto do corpo se manifestar em contrário. Uma grande parte de mim precisava deixar de estar comigo. Precisava partir. Precisava dar espaço ao novo. Com a mesma essência.

Esta alma é curiosa. Clama pelo conhecimento e pela mudança. Por buscar aprimoramento e evolução. Por se manter em movimento. Ela sabe que nada conhece, ao passo que tudo lhe é familiar.


Nasce então um homem aos quarenta e um. Que é dono de si e define seu destino. Que é atento e ciente do ambiente a sua volta. Que apoia a evolução alheia pois faz parte também da sua.

Este sabe seu lugar no mundo, o que pode e o que quer conquistar.

A maturidade chegou, sem deixar a alegria de lado. Que ama a própria companhia e jamais dispensa a de pessoas importantes na sua jornada; pelo contrário: as mantém sempre dentro do peito, independente das fronteiras ou oceanos de distância.

O homem agora ouve bem e deixa que as vibrações no ar, nas diversas formas poéticas que a natureza produz, atinjam sua alma; que também escuta melhor a quem se comunica com ela, estando aberto a cuidar e aprender. Mas também sabe dizer não para com o que não deseja interagir. Falando em ar, ele respira melhor e busca no ar o comburente de sua energia para o dia a dia, sentindo intensamente os aromas oferecidos. E esse ar também percorre sua pele, preparada para receber uma grande gama de estímulos - e a conhecer novos.

Este corpo está a par do que está a sua volta, mas respeita-se antes de tudo. Também é apto a sentir e interagir, fazendo parte das dores e prazeres, além de todas as sensações que quiser provar e provocar.

Respeito a mim. Amo a mim. Respeito o próximo. Amo o próximo. Nesta ordem.

Conheço minhas fragilidades e forças. Não sou perfeito, quiçá o quero; se algo é perfeito, não há mais nada a evoluir. Seria pior que a morte não avançar. Choro se minhas emoções assim pedirem. Assim como minha fúria vai imperar na injustiça. Sei o que me fere, assim como também sei ferir - assim evito. Sei o que me entristece. Sei o que me faz alegre e me enche de prazer. Assim, sei ser feliz.


Filho, Irmão, Amigo e Amante. Profissional. Aquele que escreve nas próprias páginas. Humano. Curioso. Artista. Escritor. Orador e ouvinte. Arruda e Casimiro.

Anderson.

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Última atualização em Aug 15, 2022 20:40 +0100
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