Back
Featured image of post Lidando com expectativas e frustrações

Lidando com expectativas e frustrações

Se há algo que a humanidade tem dificuldade de lidar em praticamente todas as áreas do conhecimento é a expectativa e, principalmente, com a frustração quando esta é quebrada. Seja no ramo profissional, pessoal, afetivo e até político. Neste texto quero me aprofundar nos acontecidos pessoais e profissionais e nas revelações que um mergulho no tema trouxe à tona.

Um tema que tenho trabalhado em mais de 3 anos de terapia e aplicado na vida pessoal e profissional nos últimos tempos é, definitivamente, a configuração de expectativa. E esta nada mais é senão o esperar, baseado em possibilidades, pressupostos, promessas ou mesmo a crença de um direito. É o nosso desejo sobre as estimativas que damos, aquele email que não chega, o Amor não correspondido… E o grande problema está em como lidamos com esse sentimento.

Enquanto aguardamos…

Enquanto ainda estamos esperando por algo uma grande ansiedade pode ser gerada. Criamos planos, vemos possibilidades além do que estamos na esperança de receber. Dor enquanto isso não chega, de diversas maneiras. No âmbito profissional, por exemplo, se um time não atinge a meta do sprint a pessoa de produto pode ter que reorganizar todo um backlog. Em temas mais pessoais você com certeza já passou pela ansiedade antes de uma sessão de feedback (ou o atual one-on-one), temendo por uma advertência ou esperando um reconhecimento.

Quanto mais tempo passamos esperando que algo aconteça, mais tempo temos para trabalhar com as possibilidades disso que ainda não temos. Quanto mais energia colocamos em determinada expectativa mais forte é o impacto dessa espera. Seja pelo tempo ou pela intensidade há um acúmulo de coisas para se lidar com o que virá depois.

Mesmo quando nossa expectativa inicial é atendida temos que lidar com o que foi gerado entre o momento de sua concepção e da sua realização. No processo podemos acabar por ter alterado o que esperávamos ou lidar com a possibilidade de não seguir adiante com o que acabou de se concretizar. Dependendo de como tratamos essa espera, o que esperamos já não é mais a mesma coisa. Raramente ficamos satisfeitos com a expectativa inicial. Volto nesse ponto adiante.

Frustração… ou Decepção?

Quando o que esperamos inicialmente não é atendido, ou mesmo quando o modificamos, há uma quebra de expectativa. Dependendo do que foi investido, tempo ou intensidade, temos impactos de irrelevantes a catastróficos. Em todos os casos relevantes há uma tendência inclusive de termos sentimentos destrutivos, profissional ou pessoalmente.

De maneira geral quando criamos alguma expectativa, esta é relacionada a outras pessoas. Esperamos que elas tenham atenção e cuidado com nossa esperança, que tenham a dedicação com a qual gostaríamos que tivessem, que se comunicassem de maneira adequada entre outros anseios que podemos imaginar. Mas estas pessoas sabem exatamente o que você espera delas? É possível controlar como elas devem lidar com a sua expectativa? Devo dizer que a resposta é não para os dois casos.

Ninguém é capaz de controlar outra pessoa. Pelo menos não sem o consentimento desta, mesmo que por meio de coação - mas é assunto para outro texto. Então, por que nos frustramos tanto? Depositamos na outra pessoa os nossos anseios e desejos, mas cobramos dela sem que ela tenha sequer ciência disso. Só reforçando: são os nossos desejos, a nossa intensidade, o nosso tempo. A nossa expectativa. Não podemos cobrar isso de ninguém mais além de nós mesmos.

A frustração vem desse sentimento que é nosso, mas o colocamos sobre os ombros de outra pessoa. Não quer dizer que os outros não errem, que não colaborem ou que não possam nos machucar. Mas o sentimento de frustração acaba sendo algo mais íntimo. Dói em nós quando outra pessoa nos frustra, pois colocamos expectativas naquela pessoa e quando esta não corresponde nos fere. E machuca, pois, quebra algo no qual acreditamos. Mas como lidar com isso?

Um papo descontraído com uma futura capa da Forbes me elucidou o que faltava nessa equação. Não consigo ser raso com o que lido. Logo, me frustrava em demasia. Mas não via que a resposta era simplesmente “não ligar”. Então foi-me apresentada a diferença entre frustração e decepção. Enquanto o primeiro é uma reação sobre o que sentimos com relação a outrem, o segundo é uma reação sobre o comportamento do outro. Por mais que pareça um mero jogo de palavras, atente-se sobre a responsabilidade da dor. Se alguém faz algo fora de nossa expectativa negativamente, é nossa a dor em acreditarmos que ela faria diferente. Nessa crença reside a frustração. A sugestão aqui é de confiar e não trazer isso para dentro de nós como algo que pode explodir.

E como lidar com isso tudo?

Não há uma resposta simples. Antes de mais nada é importante colocar cada coisa no seu lugar. Propositalmente eu posterguei a resposta com um assunto correlato para gerar expectativa em cima deste texto. Pode ser que você se decepcione com o que virá a seguir, mas espero que não se frustre 😉.

Sobre a responsabilidade das partes envolvidas: quem criou a expectativa tem que lidar com ela. Dar ciência aos outros atores do que se trata, de como deseja que seja atendido. Não alimentar essa expectativa com o que não existe ainda ou não foi devidamente (re)alinhado. Deixar claro para todos, mas principalmente para você, quando houver mudanças nos planos. Dica para casais: não há comunhão de expectativas, cada pessoa tem seu conjunto de desejos para com o outro e que precisam ser compartilhados para que isso não seja quebrado.

Quando criamos expectativas é muito importante revalidarmos a relação entre o objetivo, o que esperamos dele e o que está envolvido. Não adianta colocar mais e mais coisas dentro da mesma caixa que comportava apenas algo mais simples. Não vai funcionar se o que espera é maior do que a caixa. Se esse objetivo cresce, os tempos para ele devem também mudar. Se a possibilidade de atingir um objetivo abre portas, espere essa chave chegar. Dê a devida importância a esse objetivo, nem mais, nem menos.

O passado é imutável, podendo apenas ser ressignificado. Expectativa é sobre futuro, o que não existe ainda. Se não existe, não é possível controlar. O que temos é o presente. A cada passo que avançamos rumo ao futuro, podemos ir esculpindo-o usando o passado como ferramenta. Sendo assim, conheça o máximo que conseguir sobre o que está envolvido na sua expectativa (passado). Sempre que houver uma mudança sobre o objetivo, esteja ciente sobre isso (presente). Não conte com o que não existe ainda (futuro).


Este texto tem um tom bem pessoal, mas se aplica também para o profissional. Passei por uma experiência recente que mexeu muito com minha ansiedade e me fez sofrer muito. Aqui descrevi alguns aprendizados e constatações sobre como eu lidava com essa complicada tríade: expectativa, ansiedade e frustração. Colocar cada coisa em seu devido receptáculo e estar atento quanto as coisas que você deixa ali, sendo um presente ou uma quimera. E principalmente tendo o devido zelo com o que criamos.

Espero que este tenha atendido suas expectativas. Comente aqui se fez sentido para ti, se há algo que gostaria de adicionar ou mesmo sobre o que pensa sobre o assunto.

comments powered by Disqus
Criado com Hugo
Tema Stack desenvolvido por Jimmy