Photo by jean wimmerlin on Unsplash
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Amor e Solitude

Um curto ensaio em minha perspectiva sobre a solidão, solitude, identidade e amor

Enviaram-me uma pergunta pelo Instagram:

Como você lida com a solidão? Vejo, pelo menos nos stories, você sempre só. Isso é tranquilo para você?

Eu fiquei bem contente que esse questionamento finalmente chegou, pois há muito gostaria de comentá-lo. A resposta é praticamente um resumo dos meus anos de terapia e sobre o que escrevo em essência. Fiz uma sequência de stories explicando e trago aqui uma transcrição e complementação.


Solidão e Solitude

Preciso fazer uma desambiguação de termos que são, para fins gramáticos, sinônimos. É parte de caráter pessoal e pode ser também senso comum.

Solidão é quando somos levados a um estado de não ter companhia ou relações. Via de regra somos levados involuntariamente a este estado, seja por nossas ações ou de outrem. Esta forma do estar só usualmente é ligada a tristeza e percebida negativamente por nós e por quem está a nossa volta. Também pode desencadear, de maneira até cíclica, o estado de depressão.

Solitude, que é outra maneira de estar só, acontece voluntariamente. Percebemos que nossa companhia, na maior parte do tempo, nos é mais que suficiente e isso nos faz bem. Não preciso estar com alguém para ir ao cinema, por exemplo. Ter o próprio espaço, os horários, trilhas e vida independentes. Quando estamos bem conosco, nossa própria companhia nos faz bem.

Respondendo a última pergunta da declaração do início: não, não é tranquilo cem porcento do tempo. Eu gosto de estar entre pessoas. Gosto de me envolver afetivamente. Gosto de ajudar outras pessoas e, principalmente, gosto de aprender com outras pessoas. Então, como solitude ou solidão não significam viver em uma bolha, mas diferente do que a maioria das pessoas vive, adaptações fazem se necessárias.

E, obviamente, viver em solitude não significa que é melhor ou pior do que a sociedade está acostumada: só é diferente.

Identidade

O processo pelo qual tenho passado nos últimos anos é basicamente de independência pessoal. Identidade. Escrevo partes das minhas descobertas e aprendizados nesse blog, de maneira particular a cada um deles. Não é sobre as pessoas se tornarem algo parecido comigo, mas pequenas mudanças, que julgo benéficas, podem trazer coisas boas a algumas pessoas - nem sempre o mesmo grupo.

Eu trilho o meu caminho, com as minhas decisões. Meu entendimento é que, no livro da minha vida, permiti por muito tempo que outras pessoas escrevessem a minha história. Eu consenti isso e lido com as consequências disso. Em um certo ponto passei a individualizar esse livro. Há mais de um ano posso dizer que as novas páginas foram escritas exclusivamente por mim, por minhas escolhas, com minha caligrafia. E trago comigo todas as pessoas que fazem parte dessa história, contada por mim.

Mas escrever a própria história me distancia, e muito, das caixinhas do senso comum, como namorar, casar, ter filhos, etc. Espera-se quando não tens um relacionamento que, “como a maioria”, venha a ter uma namorada. Então, quando namora, que entre em noivado. Então casando. Depois tendo filhos. Não há absolutamente nada de errado com isso, mas simplesmente não me vejo mais nessas relações. Neste contexto realizei que o me deixa bem não existia pelo que já está estabelecido. E, em todas as diferenças, descobertas e dores, aceitei me em tudo isso.

Amor

O que absolutamente não quer dizer que eu não possa estar em um relacionamento afetivo. Há inúmeras composições de relação possíveis e com certeza estamos ainda a desenvolver mais e melhor. E precisei passar dos quarenta anos de idade, com tudo o que essas quatro décadas me ofereceram, para aprender a lidar adequadamente com algo que, infelizmente, é dito da boca para fora a todo momento por muita gente: o Amor. E a compreensão atual dele é, para mim, muito distinta do que é o estabelecido.

Essa compreensão começa pelo Amor Próprio. Eu sou a pessoa mais importante da minha vida. Com todos meus defeitos e virtudes. Com o cuidado que tenho com minha saúde física e mental. Com meu bem-estar. Com a compreensão do que fui, de quem sou e com um vislumbre do que posso ser. Com uma ideia muito concreta dos próximos passos e tendo ainda um mundo inteiro a desbravar. Entendendo como me amar, é então possível amar outras pessoas.

Algo essencial, para que eu me envolva em um relacionamento hoje em dia, é que as pessoas envolvidas sejam independentes e livres. Sem posse. Sem completar um ao outro. Parto da premissa que somos seres completos. Por livre, quero dizer que as pessoas são literalmente livres, os desejos e vontades são individuais, embora possam ser sempre compartilhados - mas nunca impostos a um pelo outro. Como se dá essa relação depende unica e exclusivamente das pessoas que a compõe.

Eu não me vejo hoje com rótulos, como “namorado” ou “marido”. Acredito que é possível ser muito mais e muito melhor do que essas definições propõem. Infelizmente somos acostumados e levados desde pequenos a nos fazer caber em classes, castas, categorias, signos e tantas outras caixinhas que nada mais servem a nos limitar. E amor é sobre tudo, menos limites.

Que lindo é poder voar com quem amamos, sem quaisquer correntes!

É possível amar sem precisar sequer de um beijo. Há quem encontre sexo muito prazeroso sem amor - não eu. A manifestação do amor não se encontra no físico. Há pessoas que amo, as quais sabem quem são, independentemente do tipo de relação, seja ela fraternal ou afetiva. O amor é o mesmo. É assim que lido. Amar não depende do tipo de relação e tenho cuidado, respeito, carinho e responsabilidade - comigo e com quem amo.


Então, minha solitude é, principalmente, sobre me amar. E me permito amar outras pessoas e a receber amor delas.

E que demonstração de amor por uma pessoa pode ser maior que apoiar e facilitar para o que de melhor ela possa ser: ela mesma!

Sem julgamentos. Sem justificativas.

Só Amor. A mim e a quem amo.

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